Roberto Alban Galeria

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Raul Mourão

O menor carnaval do mundo e outras reduções de Raul Mourão

Clarissa Diniz

O apaixonante alvoroço de um carnaval acontecido em 2021, em meio à pandemia, inflamou esta exposição. Contudo, o impacto que os poucos e intensos dias tiveram na memória afetiva de Raul Mourão não o incitou a fazer, desta mostra, um espaço-tempo de nostalgia. Como o escultor que é, a experiência carnavalesca entre um pequeno grupo de amigos, vivido em casa e quase que clandestinamente, o arrebatou por confirmar – desde a amizade, a solidariedade e a paixão – um dos princípios estético-políticos da sua obra: a redução como potência.

Há tempos que sua pesquisa tem sido marcada por investigações de escala. Num eterno ping pong, seus trabalhos ricocheteiam-se constantemente, elaborando versões de si mesmos que variam suas próprias alturas, amplitudes e materialidades. Com essas operações, Mourão parece perseguir o desejo de ocupar outras perspectivas, reposicionando nossos pontos de vista, mudando-os de lugar, convocando-nos a movimentos distintos, habitando cumes diversos.

Em que pese a tradição da escultura em monumentalizar-se, fazendo da ampliação das escalas um de seus maiores fetiches, a obra de Raul incide também na redução como estratégia de percepção e de ocupação espacial. Verter suas peças entre o mínimo e o máximo and back again aponta, desse modo, para a prática da redução como modelo de inteligibilidade. Reduzir o mundo, suas coisas e forças torna-se uma forma de circunscrevê-lo, significá-lo, compreendê-lo.

Como nos advertem várias de suas obras anteriores, a exemplo das esculturas da série Boxer (2003), para reduzir pode-se, antes, fracionar. Não à toa, a despeito da quase libidinosa atração da matriz construtivista pelo grid, quando Mourão dele se aproxima, o faz para direcionar-nos sobremaneira para o que dele escapa.

Desdobramentos de uma infinitude de trabalhos em torno da grade, suas Janelas são um relevante enunciado em torno de seu interesse pelo grid não como forma de apreensão totalitária, mas eminentemente reduzida daquilo que nos cerca. Nesse conjunto de trabalhos marcadamente gráficos – nutridos pela experimentação cotidiana (com materiais ordinários como papelão e e.v.a) da tradição da gravura e, em especial, da monotipia –, a estrutura formal da grade é o ponto de partida para recortar e realçar justamente o que nela não cabe, nem a ela se conforma.

Reduzindo a experiência do mundo a pequenos recortes de espaço-tempo na intenção de tocá-lo para pensá-lo, Raul termina, curiosamente, por exacerbá-lo. Ao olharmos através de suas Janelas, já não é possível cedermos à ilusão de uma realidade total: a operação filosoficamente redutora do artista terminou por multiplicar o que vemos ao fracioná-lo.

De suas janelas, não testemunhamos uma única paisagem, mas muitas: se atentos, percebemos estarmos diante não de uma paisagem recortada por uma grade, mas de centenas de pequenas imagens que, justapostas, nos advertem que as tentativas de apreensão – de modelos matemáticos a grids – são, por fim, sempre espectrais, posicionadas, parciais, ficcionais.

Temos, assim, um exemplo da complexa relação entre multiplicidade e unidade em seu trabalho. Como um artista cujas pesquisas estão implicadas às dimensões histórico-sociais das formas, para além de possíveis abordagens temáticas, é justamente no âmbito das operações formais que Raul Mourão politiza sua obra. Reduzir, fracionar e multiplicar – gestos recorrentes desta exposição, do vídeo Bang bang à bandeira The new Brazilian flag #11 (dedicada ao BaianaSystem) – são algumas delas.

Tal qual as paisagens que ficcionalizamos nas Janelas do artista, também a ideia de "Obra" é a reduzida aproximação de muitas frações criadoras. Talvez porque, em meio a uma pandemia que nos distanciou e isolou, esta exposição revela a vontade do artista em projetar essa operação sobre sua própria trajetória, reunindo, na Roberto Alban Galeria, versões reduzidas de momentos diversos de sua pesquisa.

Diante de um país programaticamente amnésico, perversamente capaz de queimar seus museus, florestas e povos, o gesto de Raul insiste no caráter político da produção de memória. Ao apresentar, no começo da mostra, uma espécie de "sumário" da mesma – pequenas versões das obras que, no espaço da galeria, são performadas noutras dimensões – e, ao fim, novamente reduzi-las para que caibam numa caixa, fica evidente que ao artista não interessa apenas a "experiência estética" do encontro dos públicos com seus trabalhos, senão também a compreensão das potências de suas diferentes formas de circulação e acesso.

Nesse mesmo horizonte, com uma longa trajetória de ações coletivas e colaborativas (com parcerias que se estendem por décadas), Mourão habitualmente faz, de suas exibições, uma oportunidade para movimentos que ultrapassam o tradicional narcisismo de uma exposição individual. Assim, ao passo que investe sobre a produção de memória e de acesso à sua obra, não o faz sozinho, mas como convite ao estabelecimento de relações com outros artistas, seus interlocutores.

É o caso do vibrante vídeo Relixo, criado em colaboração com Thiago Tambellini, cujo mote inicial de reapropriar-se dos arquivos de imagens de Raul torna-se, ao mesmo tempo, um exercício de memória e de coletivização.

Relixo, assim como o carnaval que inspirou esta exposição, não é um vídeo nostálgico. Ainda que reúna excertos que remontam à última década de sua vida, sua inebriante montagem não sacraliza o arquivo do artista, mas, ao contrário, o carnavaliza.

Desobedecendo cronologias, ignorando contextualizações geográficas, sem autorizações para o uso das imagens e, principalmente, cultivando aproximações insuspeitas, mediadas por ritmos e músicas que tratam imagens como corpos em movimento, Relixo performa a carnavalização que, de resto, age sobre toda a exposição.

Se vivemos, agora, um mundo que nos extrapola mais do que outrora – posto que nos apreende em grades e distâncias – quando nos convoca a participar do Menor carnaval do mundo, Raul Mourão está a nos cochichar sobre força transformadora do que, reduzido, pode enfrentar os gigantes sem que eles se deem conta do que está acontecendo.

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