Roberto Alban Galeria

L'espace indicible - O espaço inefável

Isabelle Borges

Exposição18/Outubro até 02/Dezembro, 2017

O Domínio do Espaço Inefável - uma introdução histórica/conceitual da obra de Isabelle Borges

Paula Terra-Neale

 "Je suis l'inventeur de l'expression « l'espace indicible » qui est une réalité que j'ai découverte en cours de route. Lorsqu'une oeuvre est à son maximum d'intensité, de proportion, de qualité d'exécution, de perfection, il se produit un phénomène d'espace indicible: c'est-à-dire qui ne dépend pas des dimensions mais de la qualité de perfection: c'est du domaine de l'ineffable." 

Uma obra é feita de elementos visuais sonoros, táteis, físicos, mas o que a informa são as reflexões acerca das questões da arte, são os conceitos que a sustentam. E este texto trata dessas reflexões acerca dos conceitos e exemplos com os quais a obra de Isabelle Borges dialoga para situá-la no fluxo da história. A começar pelo conceito de "espaço inefável", que ocupa um lugar central na teoria arquitetônica de Le Corbusier, e que vem exercendo uma influência considerável na produção da artista atualmente; já que o trabalho, o desenho, a pintura, a colagem, vem se desdobrando de forma a ocupar o espaço da parede, dos cômodos, do teto, da galeria, das residências, do seu entorno. São trabalhos projetados para o espaço onde habitam e onde não há mais os limites das disciplinas de arquitetura, desenho, pintura, escultura, e nem os limites das bordas, a obra de Borges finalmente aboliu as bordas. Na verdade a interação da cor como luz e reflexo interagindo com a parede foi o primeiro passo concreto de expansão da pintura e da cor no mundo. Voltando ao texto de Corbusier, originalmente publicado em 1946 na revista L'Architecture d'Aujourd'hui, notamos sua necessidade em definir com precisão o conceito de espaço inefável como o auge da experiência estética e espiritual tornada possível pela arquitetura como o "coroamento da emoção plástica". Em realidade neste espaço, que transcende a noção de dimensionamento, a experiência estética é vivida quase que como uma experiência indescritível, irredutível, e talvez melhor formulada em termos espirituais -- seu projeto da capela de Ronchamp o melhor exemplo disso. Me parece que a busca de Borges também se dá nessa esfera do espaço total -- fusão da arquitetura, da pintura e da escultura, unindo o perceptível e o imperceptível nesse auge da experiência estética única; experiência que é vivenciada através de linhas e planos, de luzes e sombras, de cortes e de sequências, mas que é ulteriormente transcendente.

Outra influência preponderante na obra de Borges foi sua experiência da obra de Kurt Schwitters. O artista alemão tem uma outra visão da arte, mais mundana que o arquiteto francês, mas igualmente totalizante. Quando Isabelle trabalhou com a artista Jack Ox, assistindo na reconstrução que Ox faz da obra de Schwitters, ela vivenciou a obra através do detalhamento em desenho de toda a fantástica construção de Merz. A obra de Schwitters que faz uso da "combinação, para fins artísticos de todos os materiais concebíveis" obriga o espectador a experimentar, em vez de simplesmente, ver a arte. O trabalho de Schwitters foi crítico no desenvolvimento inicial da arte experiencial, criado através da colaboração com outros artistas e evoluindo com a constante adição de elementos, era um tipo de colagem que exigia que o espectador assumisse um papel ativo na interpretação e significado do trabalho. 

Borges me fala dessa influência dadaísta, essa busca de uma arte total, que transcende o espaço representacional bidimensional para ocupar o espaço do entorno, exigindo essa participação mais ativa do espectador. No seu caso ela trabalha com recortes de jornais que inicialmente forravam o chão do atelier e começaram a capturar sua atenção, a vida cotidiana se imiscuindo no trabalho. Isabelle nos diz que “as colagens Dadá também me inspiram por serem retratos de um tempo em mutação, época de transformações na sociedade, e colagem como um meio rápido de registrar este momento… Com as colagens que realizo com textos procuro meio que organizar a avalanche de informações que temos hoje, mas deixo sempre livre para que cada um tenha sua leitura.” É uma obra que faz uso da palavra impressa menos como linguagem e mais como elemento causador de ruídos, onde a quebra de homogeneidade das superfícies da colagem, se dá através das formas das letras e de suas possíveis conotações, como que para ativar a nossa participação. O uso de textos em colagens feitas pela artista de recortes dos jornais cotidianos, textos que são desconstruídos, ampliados em imagens, letras retiradas de sua função cognitiva para oferecer novas possibilidades de significações ao participante. Tudo isso como parte de um processo de ressignificação da arte, que se permite também trazer um pouco da linguagem como experiência para seu espaço abrangente. O uso do texto na obra de Schendel tem uma grave repercussão na obra de Borges dos últimos anos.

Curiosamente foi no Rio de Janeiro que tivemos essa fusão de uma arte que enquanto utópica e construtiva faz uso dos elementos matemáticos e científicos, porque se quer objetiva, e logo após faz a quebra desse paradigma, para incorporar o conceito de experiência -- Erlebnis em alemão. No Rio a propagação da Filosofia da Vida, se dá também através dos estudos de Mário Pedrosa, que ao retornar da Alemanha tendo estudado esses aspectos de uma arte total, tem um papel fundamental como pensador e crítico que está no centro da ruptura do movimento neoconcreto com o concretismo. Erlebnis é uma palavra comum alemã, que tem a conotação normal de evento, ocorrência, aventura, experiência; algo memorável que acontece com alguém. Mas esta tornou-se um termo de arte, uma ideia extraordinariamente rica e poderosa que fundamenta o pensamento no sentido inesgotável da experiência. A experiência ao mesmo tempo mundana e transcendente da arte foi vivenciada radicalmente pelos artistas brasileiros nos anos 50s e 60s, e Borges retoma este percurso já trilhado por vários predecessores, dentre os que ela cita estão. Lygia Clark, Mira Schendel, Lygia Pape, Hélio Oiticica, Franz Weissmann, e outros.

Borges na sua trajetória de artista, de quase três décadas de trabalho traz na bagagem do Brasil para Berlim - onde estudou, vive e trabalha há mais de duas décadas a herança Neoconcreta e as lições teóricas de história e teorias de artes aprendidas nos cursos livres da EAV do Parque Lage, onde no final dos anos 1980s ela frequentava. Aqui na Europa, na Alemanha foi o contato com a arte de vanguarda modernista, de artistas como Kurt Schwitters, o campo expandido da arte, a busca da fusão entre arte e vida que sedimentam essa trajetória, mas sem perder o desejo utópico de Le Corbusier. 

A experiência de todos esses precursores na saída da experiência pictórica bidimensional para o espaço habitado, arquitetônico e vivencial, se sedimentam na arte de Borges, o espaço total da arte nesse campo expandido sem fronteiras. Com todas essas influências que aqui discutimos queremos entretanto enfatizar que sua obra tem um desenvolvimento próprio. A obra de Borges é uma obra que tem uma linguagem muito pessoal ainda que em sua universalidade geométrica e abstrata. Ela está encontrando esse equilíbrio do espaço inefável através do desenho que extrapola as bordas e sai para as paredes, através da poesia luminosa que se constrói no jogo das cores que despontam mansamente aqui e ali contra as faixas pretas ou dos espaços brancos e vazios. O espaço pictórico se desabrochando em frente aos nossos olhos num movimento contínuo em que o desenho, a base de tudo, não se traduz em certezas, mas nos levam a caminhos sem fins, todos em direção a esta experiência totalizante e abrangente da arte, da qual a obra de Borges faz parte.