Roberto Alban Galeria

O menor carnaval do mundo

Raul Mourão

Abertura 09/Dezembro

Exposição10/Dezembro até 05/Fevereiro, 2022

Press Release

Victor Gorgulho

A Roberto Alban Galeria tem o prazer de anunciar sua nova exposição, a individual de Raul Mourão, intitulada O menor carnaval do mundo, segunda exposição do artista com a galeria. A presente mostra reúne um conjunto de 44 obras recentes do artista, oriundas de diferentes séries e campos de investigação de sua vasta produção, iniciada na segunda metade da década de 1980.

Expoente de uma geração que marcou o cenário carioca na década seguinte, Raul Mourão é notadamente conhecido por uma produção multimídia, que se desdobra em esculturas, pinturas, desenhos, vídeos, fotografias, instalações e performances. Frequentemente, o artista investiga os cruzamentos entre estes campos e linguagens, estimulando relações multidisciplinares em sua prática, lançando mão de um vocabulário visual único e de um peculiar senso de apreensão da realidade que o cerca.

A obra de Mourão alimenta-se, assim, de trivialidades e signos da vida cotidiana e de sua vivência da paisagem urbana, então interpretados e reconfigurados pelo artista em um processo de elaboração de seu olhar sobre eles, tão engenhoso quanto perspicaz, capaz de refletir sobre o que nos parece mundano, efêmero; mas também sobre questões mais amplas, como o contexto sócio-político do país.

Este fluxo entre as esferas individual e coletiva acontece em uma constante retroalimentação entre estes polos, resultando em uma produção artística de alta voltagem inventiva e linguística, em estado de ebulição e renovação contínuos, ao passo em que determinados temas, elementos e materiais seguem em experimentações constantes e variadas dentro do processo criativo do artista.

Em O menor carnaval do mundo, Mourão reforça este interesse por mídias e suportes diversos ao apresentar obras recentes de diferentes séries de sua produção, todas realizadas nestes últimos anos. O conjunto reúne desde novas esculturas cinéticas à pinturas de sua série Janelas, de fotografias e pinturas da série SETADERUA à vídeos como Bang-Bang – obra exibida em abril na sua individual em Nova Iorque na Galeria Nara Roelser.

O título da mostra alude tanto à uma dimensão narrativa, afetiva – um carnaval vivido junto a um grupo reduzido de amigos, dentro do período pandêmico – quanto aponta para um certo jogo de escalas proposto pelo próprio artista a partir da obra título da exposição. Escultura realizada em dois tamanhos diferentes, a obra homônima evidencia o desejo de Mourão de experimentar estas pequenas variações sobre um mesmo tema ou objeto, explorando uma mesma ideia por vias distintas, mas também complementares, insuspeitas.

Suas bandeiras do Brasil, por exemplo - subtraídas de seus círculos centrais e do lema positivista de "ordem e progresso" - aparecem ao longo da mostra tanto em uma pequena versão p&b em tecido (dedicada ao grupo BaianaSystem) quanto em uma fotografia realizada na orla carioca, em parceria com o artista português Tomás Cunha Ferreira.

Chama a atenção, também, a presença da série Sem título, um delicado conjunto de obras feitas a partir de folhas de papel manteiga, óleo e grafite, sobre as quais o artista realiza diferentes incisões (circulares, retangulares) evidenciando um desejo de experimentação formal - ainda que livre e quase randômica em sua execução – que antecede a confecção das bandeiras.

Este desejo de Mourão de apresentar suas obras recentes através de uma abordagem transversal e heterogênea, revela uma dimensão há muito presente em sua prática, dado que o artista está constantemente a experimentar e esgarçar os limites de suas próprias criações, através de jogos de escala, repetições propositais, embaralhamentos e desvelamentos de toda sorte que pedem do espectador uma posição ativa na elaboração de chaves-de-leitura para a compreensão do todo.

Na entrada do espaço expositivo, uma espécie de parede-índice reúne um conjunto variado de trabalhos, sublinhando este senso de "desnorteamento organizado" proposto por Mourão, nos convidando a adentrar suas diferentes séries e campos de investigação a partir da sugestão de possibilidades diversas de relações a serem traçadas entre as obras em si. O artista não nos indica, assim, direções fixas ou trajetórias precisamente delineadas. Por vias opostas, nos concede, pistas e indícios que funcionam espontaneamente como disparadores destes inúmeros percursos a serem realizados por entre as salas da mostra.

Na primeira sala da exposição, duas esculturas cinéticas inéditas emulam o desenho de casas, referenciando a dimensão doméstica do carnaval sugerido no título da mostra. Nas paredes, pinturas recentes da série Janelas reforçam, ainda mais, o pensamento arquitetônico em jogo nestes trabalhos.

Nestas pinturas, Mourão realiza uma série de pequenas monotipias retangulares, feitas com o auxílio de um suporte de madeira e tinta acrílica preta, sobre a superfície da tela branca, formando grids que reúnem estas pequenas "janelas", conjuntos de frestas e aberturas que sugerem um movimento de ampliação do espaço do cubo branco, buscando excedê-lo, arejá-lo. Nas palavras da curadora e crítica Clarissa Diniz:

"Se vivemos, agora, um mundo que nos extrapola mais do que a outrora posto que nos apreende em grades e distâncias, ao que parece, quando nos convoca a participar do Menor carnaval do mundo, Raul Mourão está a nos cochichar sobre a força transformadora do que, reduzido, pode enfrentar os gigantes sem que eles se deem conta do que está acontecendo."

Dois outros trabalhos presentes na mostra, pensados especialmente para a ocasião, funcionam como obras-síntese do pensamento do artista para a presente individual. Relixo (2021), vídeo-colagem realizada a partir da reunião e montagem de trechos de vídeos e filmes do acervo do próprio artista, feitos nos últimos anos em aparatos como celulares e câmeras portáteis. O gesto de voltar-se para seu próprio arquivo – espaço de produção involuntária de memória – evidencia o desejo de tornar público materiais antes guardados e que, agora revirados e justapostos em uma peculiar costura de fragmentos, ganham vida em uma veloz e sagaz montagem que quase nos impede de digerir imagens de naturezas, cenários e origens diversas. Olhares do artista sobre o mundo que o cerca: prosaico e poético, banal e extraordinário.

Em um movimento reverso – de transformar em um objeto privado algo que agora manifesta-se na esfera pública – Mourão apresenta, no segundo andar da galeria, uma caixa onde reúne versões menores e adaptadas de alguns dos trabalhos da mostra (uma versão inédita da bandeira do Brasil a ser recortada pelo próprio colecionador, prints de fotografias, textos e mais), na tentativa de confeccionar uma versão compacta, portátil e arquivável da própria exposição.

Esta relação entre o vídeo e a caixa, portanto, propõe uma aguçada leitura acerca do encadeamento do pensamento do artista em relação à sua mostra. Afinal, é o seu próprio "menor carnaval do mundo" o episódio catalisador deste jogo de esgarçamentos e oscilações entre esferas e camadas semânticas. Um carnaval reduzido em seu tamanho e execução, mas surpreendentemente vasto em seus desdobramentos e frutos posteriores.

Raul Mourão nasceu no Rio de Janeiro, em 1967, onde vive e trabalha.

Entre suas principais exposições individuais e projetos solo recentes, destacam-se: Empty Head, Galeria Nara Roesler Nova York (2021), A Máquina do Mundo, Pinacoteca do Estado de São Paulo (2021), Estado Bruto, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (2020), A Escolha do Artista, Instituto Casa Roberto Marinho (2020), Experiência Live Cinema #4: Raul Mourão + Cabelo, Studio OM.Art (2019), Fora/Dentro, no Museu da República (2018), no Rio de Janeiro, Brasil; Você está aqui, no Museu Brasileiro de Ecologia e Escultura (MuBE) (2016), em São Paulo, Brasil; Please Touch, no Bronx Museum (2015), em Nova York, Estados Unidos; Tração animal, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM Rio) (2012), Rio de Janeiro, Brasil; Toque devagar, na Praça Tiradentes (2012), no Rio de Janeiro, Brasil. Entre as coletivas recentes, encontramos: Coleções no MuBE: Dulce e João Carlos de Figueiredo Ferraz – Construções e geometrias, no Museu de Ecologia e Escultura (MuBE) (2019), em São Paulo, Brasil; Modos de ver o Brasil: Itaú Cultural 30 anos, na Oca (2017), em São Paulo, Brasil; Mana Seven, no Mana Contemporary (2016), em Miami, Estados Unidos; Brasil, Beleza?! Contemporary Brazilian Sculpture, no Museum Beelden Aan Zee (2016), em Haia, Países Baixos; Bienal de Vancouver 2014-2016, Canadá (2014).

Seus trabalhos figuram em coleções de importantes instituições, tais como: ASU Art Museum, Tempe, EUA; Instituto Itaú Cultural, São Paulo, Brasil; Museu de Arte Contemporânea de Niterói (MAC-Niterói), Niterói, Brasil; Museu de Arte do Rio (MAR), Rio de Janeiro, Brasil; e Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM Rio), Rio de Janeiro, Brasil.

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