Roberto Alban

O coxo, o sádico e o poeta

| Alvaro Seixas |

de 23 Março, 2017 a 22 Abril, 2017


Poetas, perversos e outras tragédias

Felipe Scovino

Todo artista cria uma atmosfera, uma história ou um ambiente para a criação de seu trabalho. Ou ainda uma linha de coerência que se reflete na investigação do material (cito os casos de Sergio Camargo e Amilcar de Castro) ou na ampliação dos limites do suporte (seria o caso de Hélio Oiticica e o seu estudo sobre a pintura, chegando inclusive a tridimensionaliza-la e torna-la tátil como são os seus “Penetráveis”). A narrativa de Alvaro Seixas para essa exposição parte da biografia de 3 poetas. São eles: Lord Byron (o coxo), Sade (o sádico) e Álvares de Azevedo (o poeta). Percebam que essa mistura, aparentemente incongruente, se faz pela capacidade de todos eles construírem uma persona, um alter-ego. Ouso dizer que as personas de Byron e Sade ganham uma maior visibilidade nas pinturas do que Azevedo, apesar de um certo peso melancólico habitar algumas obras. Byron foi conhecido por ter escrito D. Juan (1818-23), uma espécie de autobiografia romanceada do próprio autor. A vida desse poeta foi marcada por encontros amorosos, guerras (foi herói na luta pela independência dos gregos contra o exército otomano), viagens, possíveis sodomias. O seu lado sarcástico e carnal se transfere para o campo da poesia. Para Augusto de Campos, Byron era “moderníssimo em suas ‘digressões’ colagísticas, que atropelam a narração, vertendo poesia em prosa e prosa em poesia em versos inauditos de rimas sintagmáticas” [1]. Vida e obra em Byron, assim como em Sade, se complementavam. Eram personagens de si mesmo. O Don Juan e a vida de seu autor se misturaram a tal ponto que se tornou impossível separar um do outro. Estão lá as peripécias amorosas e um ruidoso e ácido comentário sobre a sociedade de sua época. Sua linguagem – repletas de estrofes digressivas, metalinguísticas e autoquestionantes – é um soco no estômago do Romantismo e na ideia do sublime como mediador de experiências entre sujeito e natureza. Sade explora a possibilidade de nos livrarmos das regras e concessões da sociedade. A libertinagem que tanto exaspera em seus poemas cria uma associação tanto com a desobediência civil quanto com o desejo: o sujeito passa a ser dirigido ou motivado pela sua libido, já que as proibições estão suspensas. A libido não é mais tabu mas o motivo condutor das suas ações. Mas, enfim, esse não é um texto sobre Byron, Sade ou Azevedo mas em como essas atmosferas, essas histórias, esses personagens e suas motivações contaminam e alimentam nesse momento a obra de Alvaro Seixas. Este não realiza uma anti-pintura ou é puramente sarcástico com o meio, ao menos não nas pinturas. Seus desenhos, também mantendo uma relação porosa com esses poetas, são um capítulo à parte. Com ataques cada vez mais diretos contra a hipocrisia de um mercado de arte, Alvaro se aproxima do sarcasmo contagiante e inteligente de fontes muito díspares, tais como a revista New Yorker e os artistas Ad Reinhardt, Raymond Pettibon e Robert Crumb.

“Pintura sem título (Ariel encontra Caliban)” celebra essas diversas características que comentei. A ausência de figuras e a presença de largos campos cromáticos que criam um véu ou camada sobre vestígios de possíveis histórias ou traços que foram parcialmente apagados, trazem esses dados da desobediência e do sarcasmo. A presença luminosa do néon conversa com esse dado transgressor dos poetas. É a diferença, o inesperado, o elemento que desestabiliza e cria um peso desestabilizador. Percebam que o artista enfatiza uma narrativa de Azevedo – Ariel e Caliban são personagens de seus poemas - que não se expressa em palavras nem em imagens claras, mas em névoas, desaparições, camadas sobre camadas que negam uma objetividade, mas que por outro lado torna aparente um estado de espírito, digamos assim. Já em “Pintura sem título (Orgia sádica)” a densidade da tinta acrílica cria um volume pastoso, fruto de uma mistura  de distintas cores que promove a sensação de fluídos ou índices de corpos entremeados. Tem o caráter de pintura libidinal porque no campo da metáfora o que Alvaro faz transparecer é a liquidez do gozo. A aparição de uma carnalidade é o que lhe interessa aqui, fazendo referência clara ao caráter carnal da poesia de Byron e Sade anunciado por Augusto de Campos. Essa relação entre carne, desejo, libido e a aparição (densa) da tinta e das formas (abjetas) sobre a tela encontra continuidade em “Don Juan encontra Catarina”. A concentração de tinta a óleo criando volume nos limites da tela remete às ejaculações dos encontros fortuitos e amorosos dos dois personagens. Reparem nas pinceladas rápidas que sintetizam a própria dinâmica dos corpos e fluidos.

Em “Sade morre em Charenton” metaforicamente presenciamos o ambiente ultrajante e decrépito da prisão em que o poeta falece. A repugnância que o conjunto volumoso e denso das camadas de óleo traz para o observador reflete em essência os dias insalubres e tortuosos que Sade passou na reclusão. A tristeza do poeta romântico, na figura de Álvares de Azevedo, se mostra com mais força nesse momento. É um contraponto ou antítese perfeita para “Haidée”. A superfície macia e suave que a tinta acrílica constrói nessa obra, traduz a fantasia do corpo jovem, romântico, quase virginal, pronto para ser seduzido pelo amante mais voraz. Nesses dois últimos exemplos fica claro uma ligação importante que o trabalho do artista realiza: paixão e violência. Eles não são campos antagônicos, pois partem de fontes ou histórias semelhantes e invariavelmente se encontram, colidem e interagem em seu trabalho.

Fecho o texto com o desenho “O herói” que estampa a cópia impressa do rosto de Johnny Depp, travestido do personagem Don Juan DeMarco que interpreta no filme homônimo dirigido por Jeremy Leven em 1994. Na história, que se passa na contemporaneidade, um jovem afirma ser Don Juan e narra ao seu psiquiatra as peripécias amorosas da sua vida. A imagem escolhida por Alvaro é icônica pois é o personagem, mascarado, com uma corda no pescoço, numa perspectiva bem teatral, e lançando um olhar (ao outro, aquele que o observa) caricato, típico de um ator canastrão. A exposição, portanto, percorre essa veia do personagem que se expõe sem firulas, que ambiciona dizimar qualquer tipo de regra ou método que se imponha como verdade ou fato, pois ele constrói as suas próprias certezas e vontades. Expõe-se demasiadamente, sabe que corre esse perigo mas é exatamente isso que o faz continuar. Estão lá o seu corpo, as suas marcas e conquistas. Não tem medo do ridículo pois ridiculariza-se a si próprio antes de mais nada. É por essa atmosfera e personagens que têm o desejo nas suas mais diversas ambições, o amor, a libido e a paixão violentamente exposta que a mostra mais recente de Alvaro Seixas segue.

[1] CAMPOS, Augusto de. In: Byron e Keats: entreversos. Tradução de Augusto de Campos. Campinas: Editora da Unicamp, 2009, p. 12.